por MARLA O’HARA, 11 de fevereiro de 2010.
Marla aplicando jogo na oficina do Metaxis na penitenciária provinciana de Jujuy.
A minha participação no encontro junto ao grupo Metaxis deu-se na curingagem da peça Oprinilda em uma rua de Susques, no auxilio de aplicação de uma oficina para adolescentes na mesma cidade e no auxílio de planejamento e aplicação de uma oficina para homens presos da Penitenciária de Jujuy. Também assisti a ensaios e a apresentação do Oprinilda no Teatro de la Vuelta Del Siglo e a uma mesa sobre as experiências de teatro nas prisões composta de profissionais do teatro da Alemanha e da Argentina. Podemos acrescentar ainda termos visto alguns outros espetáculos de teatro fórum em espaços variados. A participação em Susques foi marcada pelo envolvimento de membros da comunidade em vários níveis. Quanto à apresentação em si contamos com a presença dezenas de pessoas de várias idades que aguardaram pacientemente até que o grupo estivesse pronto.
Durante a apresentação os espect-atores reagiam com risos constantes mesmo em momentos “impróprios”, ação esperada de um público que não está acostumado com a linguagem e a com língua na qual o espetáculo foi apresentado. Quando o fórum foi executado as participações foram poucas e tímidas, apesar de ter havido muitos comentários entre eles. Isto se deveu mais a inexperiência com a técnica. Sendo assim, podemos constatar que para existir a participação do espect-ator não basta que este seja solidário, faça analogias ou sofra identidade. A presença de um tradutor (Patrício) para o fórum foi bastante bem sucedida. Quanto à oficina para adolescentes ocorrida no dia seguinte à apresentação, o envolvimento destes foi satisfatório. Relatos de opressão não foram conseguidos, embora tivéssemos informações posteriores de que eram freqüentes casos de abuso sexual, por exemplo, e estes, provavelmente, fizessem parte do dia a dia dos oficinandos. Um convívio maior dentro de um contexto melhor estruturado para receber e lidar com as consequências de se provocar tais relatos talvez surtisse melhores efeitos.
Dodi, ao centro, em ensaio antes da apresentação do espetáculo Oprinilda no Teatro del Siglo.
Na penitenciária o trabalho feito com homens revelou logo no início que eles tinham corpos menos rígidos e condicionados que os presos com os quais lidei no Brasil. Não usavam uniformes e cabelos padronizados o que ajuda a preservar-lhes a identidade.
Alguns se mostraram renitentes em fazer os jogos, colocando-se à margem do processo ora participando, ora não. Para explicar o fato teríamos que investigar a fundo tais comportamentos.
Muitos tinham dificuldades em concentrarem-se nas atividades. Em geral eram bastante falantes.
Nas opressões elencadas pelo próprio grupo a princípio eram dos administradores em relação aos presos, mas nas improvisações o que foi mostrado eram opressões dos presos para os próprios presos. Isto em três sub-grupos (um com o qual trabalhamos e dois que estavam com o grupo Revolução Teatral). Já o sub-grupo que ficou com o Dodi apresentou a opressão sofrida pelos presos na hora de receberem tratamento médico. Lamentavelmente não foi possível a realização do fórum.
No tocante a apresentação da peça Oprinilda no teatro, o que podemos destacar foi o comportamento da protagonista (oprimida) como heroína, fazendo o fórum tomar rumos diferentes do convencional.
A mesa de teatro nas prisões teve ilustrações por vídeos. Os grupos participantes relataram as experiências recentes com oficinas para tal público. O grupo da Alemanha formulou três questões a fim de iniciar o debate, o qual foi intenso. Houve a citação do Brasil como referência mundial de teatro nas prisões, principalmente o Projeto Drama e Direitos Humanos em Cena, dos quais tive a oportunidade de participar. O 1º Encontro Latinoamericano de Teatro do Oprimido foi muito bem organizado pelo MTO Jujuy mostrando a relevância do Teatro do Oprimido hoje nesta parte do mundo e oportunizando a todos momentos de estudos e reflexão.
MARLA O’HARA é praticante de Teatro do Oprimido, conduziu oficinas pelo Metaxis e curingou a apresentação do Oprinilda em Susques no I Encuentro Latinoamericano de Teatro del Oprimido.

